Cabe, agora,
à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal, voltar
os olhos para a proposta de Reforma do Judiciário. Dois fatos
chamaram atenção mais uma vez para o tema. O primeiro
foi uma pesquisa feita com magistrados, publicada pela imprensa,
apontando que a grande maioria dos integrantes desta categoria se
opõe ao controle externo do Judiciário. O segundo
foi uma declaração mais do que insuspeita do ministro
Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, de que era
difícil ser magistrado no Brasil, em face dos últimos
escândalos acontecidos nesse meio.
As duas questões parecem contraditórias, mas temos
absoluta certeza de que, se não se instalar o controle externo
do Judiciário, a reforma desse Poder não se realizará
completamente. Recentemente, o Observatório do Judiciário
do Ceará encaminhou à Procuradoria Geral da República
e ao Superior Tribunal de Justiça duas representações
contra dois desembargadores dos quais, em respeito ao Tribunal de
Justiça do Ceará, omitirei os nomes.
Os desembargadores são denunciados por tráfico
de influência; anipulação de informações;
envolvimento com traficantes; condutas incompatíveis com
as normas processuais; sociedade em escritório de advocacia;
declaração e bens incompatíveis com os vencimentos
e outras irregularidades da mais alta gravidade. Um deles, inclusive,
havia sido afastado pelo próprio Tribunal de Justiça,
mas por decisão monocrática de um colega foi reintegrado
e hoje espera decisão do Pleno.
No Senado, está em debate a proposição
aprovada na Câmara dos Deputados, oriunda da PEC de autoria
do ex-deputado Hélio Bicudo, que prevê a criação
de um Conselho Nacional de Justiça, órgão externo
nacional de controle do Judiciário.
A proposta foi mudada e - digo mais - deturpada no último
parecer do senador Bernardo Cabral. Mas essa proposição
não trata, porém, do controle externo nos estados.
Um único órgão teria o condão de resolver
todas as questões em todo o País. Por isso, 216 deputados
apoiaram a iniciativa nossa, junto com outros integrantes da Comissão
Especial da Reforma do Judiciário na Câmara dos Deputados,
de apresentar uma Proposta de Emenda Constitucional que crie uma
espécie de controle externo do Judiciário também
nos estados.
Hoje, no âmbito da cada Tribunal de Justiça Estadual,
existem os conselhos estaduais de magistratura. Mas esses organismos,
compostos apenas por desembargadores, a meu ver são incapazes
de mudar o perfil ético do Judiciário. Nossa proposta
é a de que eles sejam compostos também por magistrados
de primeiro grau, representantes da advocacia, do Ministério
Público e da sociedade, este último eleito pela Assembléia
Legislativa do Estado.
Não podemos perder a oportunidade de introduzir
esse controle. A proposta de reforma previdenciária foi aprovada
pela Câmara em tempo recorde, mas a do Judiciário tramita
no Congresso Nacional há 11 anos. É hora de terminar
essa reforma, que tem de ser completa, radical, para mudar o perfil
do Judiciário tanto no âmbito dos estados, com as justiças
estaduais, quanto no âmbito da União, com a Justiça
Federal. Está na hora de o Legislativo chamar a si a tarefa
da democratização e da moralização daquele
Poder, tornando-o mais acessível à população.
A reforma do Judiciário é urgente, talvez tanto ou
mais do que outras que estão sendo discutidas no Congresso,
para que a sociedade possa assumir esse projeto e para que os juízes
entendam que o seu Poder também deve prestar contas ao povo,
que afinal é o destinatário dos seus serviços.
Divergências à parte sobre seu teor, as reformas constituem
a base sobre a qual o atual governo pretende implementar as mudanças
mais profundas que se fazem necessárias par a termos uma
sociedade mais justa, com menos desigualdades sociais e melhores
condições de vida para todos os brasileiros.
Além de acabar com a fome que castiga grande
parte de nossa população, o combate à corrupção
foi um dos pontos mais batidos na campanha do Presidente Luíz
Inácio Lula da Silva e continua sendo um dos aspectos ao
qual o nosso Presidente se refere com freqüência em seus
ronunciamentos públicos. Para acabar com a corrupção
e com a impunidade, que minam nossos recursos públicos, põem
em descrédito as instituições públicas
e abalam a auto-estima do povo brasileiro, é fundamental
desencastelar o Judiciário. Porque, bem ou mal, os poderes
Executivos e Legislativos estão sujeitos à fiscalização
da sociedade por meio das entidades organizadas e da imprensa.
Apenas o Judiciário continua intocável,
como se estivesse acima do bem e do mal. Além de todos esses
aspectos, essa reforma é indispensável para promover
a justiça social e completar o processo de democratização
política e institucional do País, que vem se consolidando
a partir da elaboração da Constituição
Federal de 1988. |