Esquerda ou direita?
  Guilherme José Purvin de Figueiredo*
 


Lembro-me dos anos em que tive o privilégio de trabalhar num Centro de Estudos e de ver bem de perto o nascimento dos ideais da Advocacia Pública brasileira. O Centro de Estudos era um grande referencial para todas as procuradorias do país naquela época. Uma instituição que contava com uma unidade instalada num prédio de 7 andares, no centro da cidade, inteiramente dedicada ao estudo e à pesquisa, com biblioteca, salas de palestras e reuniões, serviços editoriais semestrais, doze boletins mensais, seria sempre uma instituição respeitada perante as demais carreiras jurídicas. Diria que ele era uma versão profissional do Centro Acadêmico. Havia, porém, os que não gostavam daquelas atividades culturais, o que me fazia recordar ainda mais dos tempos de estudante. Na faculdade, aqueles que chamávamos de “direita” tinham uma característica bastante peculiar: detestavam quem lia romances, discutia política no centro acadêmico, participava de grupo de teatro universitário ou viajava para o ENEDA. Não sei se eles eram realmente militantes direitistas, o que sei é que eles não gostavam que conversássemos, que confrontássemos nossas idéias, que escrevêssemos. Ficavam incomodados com quem pensasse da mesma forma como alguns se incomodam com quem fuma num restaurante.

É claro, nem só de negações se caracterizava a turma da direita na faculdade. Eles gostavam, por exemplo, de tradições. Não de criar novas tradições, é claro, apenas de reproduzir hábitos antigos. Não me lembro de absolutamente nenhuma inovação que a direita tenha trazido para a minha faculdade durante meus cinco anos de graduação. Só me lembro dos rojões que eles atiravam nos corredores, nos trotes violentos e nos cartazes que eles arrancavam das paredes. Já os que intitulávamos de “esquerda”, por sua vez, também não deviam ser militantes esquerdistas. Estavam unidos mais por causa do “Casanova e a Revolução” do que do “Estado e a Revolução”, dos “100 anos de Solidão” do que dos “10 dias que abalaram o mundo”. Diziam-se socialistas e liam avidamente “1984”, de Orwell. Isso não importava, o que realmente valia é que nenhum deles pensava em soltar bombas nos corredores ou nas bancas de jornal. Uniam-se no porão da faculdade para discutir política estudantil, estado de direito e, é claro, para tomar cerveja e namorar. Eram pretensiosos, sem dúvida. Ignorantes, na maior parte das vezes. No entanto, procuravam mudar aquela realidade sombria dos anos 60 e 70. E, por quererem mudar, não eram muito chegados às tradições acadêmicas. Na década de 90 as expressões “direita” e “esquerda” foram abolidas do vocabulário, assim como “progressista” e “reacionário”. Com isso, tornou-se muito mais complexa a tarefa de classificar politicamente fulano ou sicrano no ano de 2003. Como qualificar politicamente alguém que, por exemplo, desincentiva a participação de advogados públicos, cortando a verba para que tesistas viajem e defendam novas idéias sobre a Advocacia Pública? Ou que, numa atitude de mau gosto e falta de austeridade administrativa, para dizer o mínimo, publicam no Diário Oficial que financiarão despesas com ônibus rodoviário para uma viagem de pelo menos trinta e seis horas? O que pensar daqueles que desmontam as estruturas de uma unidade de ensino, divulgação e pesquisa jurídica de sua instituição?

Faria algum sentido chamar essa pessoa de “direitista” ou de “reacionária” em pleno século 21? Lembro-me que, em “1984”, uma das táticas empregadas pelo Grande Irmão para emburrecer o povo era abolir palavras: em lugar de “mau”, preferível dizer “imbom”. Eliminando palavras, vedando o debate, cerceando reuniões científicas, em pouco tempo teríamos uma multidão de autômatos dóceis e sem opiniões subversivas. Será por isso que velhos conceitos como “direita” e “esquerda”, “reacionários” e “progressistas” estão sendo esquecidos? Talvez seja preciso retomar as lições de Orwell. Há pessoas que pautam seu comportamento social e que afinam seu discurso de acordo com ideologias políticas bastante definidas e sobejamente conhecidas ao longo da história. São pessoas que, ao ouvirem a palavra cultura, sentem a vontade de sacar a arma. Se é assim, quem sabe seja interessante reavivar o uso dessa dicotomia que, a despeito de simplista, está repleta de significado histórico. Por que negar que aqueles que, hoje, deliberadamente, destroem os centros de cultura de suas instituições ou que desprezam e colocam obstáculos à participação em congressos nacionais, são feitos do mesmo barro daquela gente que buscava vantagens no obscurantismo do período de ditadura militar? Por que não admitir, pura e simplesmente, que a velha direita, astuta, perversa, avessa à cultura e vingativa como sempre, depois da queda do muro de Berlim, beneficiase com a condenação ao seu rótulo mais característico?

Guilherme José Purvin de Figueiredo Mestre e Doutor em Direito – USP Advogado Público

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