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Lembro-me
dos anos em que tive o privilégio de trabalhar num Centro
de Estudos e de ver bem de perto o nascimento dos ideais da Advocacia
Pública brasileira. O Centro de Estudos era um grande referencial
para todas as procuradorias do país naquela época.
Uma instituição que contava com uma unidade instalada
num prédio de 7 andares, no centro da cidade, inteiramente
dedicada ao estudo e à pesquisa, com biblioteca, salas de
palestras e reuniões, serviços editoriais semestrais,
doze boletins mensais, seria sempre uma instituição
respeitada perante as demais carreiras jurídicas. Diria que
ele era uma versão profissional do Centro Acadêmico.
Havia, porém, os que não gostavam daquelas atividades
culturais, o que me fazia recordar ainda mais dos tempos de estudante.
Na faculdade, aqueles que chamávamos de “direita”
tinham uma característica bastante peculiar: detestavam quem
lia romances, discutia política no centro acadêmico,
participava de grupo de teatro universitário ou viajava para
o ENEDA. Não sei se eles eram realmente militantes direitistas,
o que sei é que eles não gostavam que conversássemos,
que confrontássemos nossas idéias, que escrevêssemos.
Ficavam incomodados com quem pensasse da mesma forma como alguns
se incomodam com quem fuma num restaurante.
É claro, nem só de negações se caracterizava
a turma da direita na faculdade. Eles gostavam, por exemplo, de
tradições. Não de criar novas tradições,
é claro, apenas de reproduzir hábitos antigos. Não
me lembro de absolutamente nenhuma inovação que a
direita tenha trazido para a minha faculdade durante meus cinco
anos de graduação. Só me lembro dos rojões
que eles atiravam nos corredores, nos trotes violentos e nos cartazes
que eles arrancavam das paredes. Já os que intitulávamos
de “esquerda”, por sua vez, também não
deviam ser militantes esquerdistas. Estavam unidos mais por causa
do “Casanova e a Revolução” do que do
“Estado e a Revolução”, dos “100
anos de Solidão” do que dos “10 dias que abalaram
o mundo”. Diziam-se socialistas e liam avidamente “1984”,
de Orwell. Isso não importava, o que realmente valia é
que nenhum deles pensava em soltar bombas nos corredores ou nas
bancas de jornal. Uniam-se no porão da faculdade para discutir
política estudantil, estado de direito e, é claro,
para tomar cerveja e namorar. Eram pretensiosos, sem dúvida.
Ignorantes, na maior parte das vezes. No entanto, procuravam mudar
aquela realidade sombria dos anos 60 e 70. E, por quererem mudar,
não eram muito chegados às tradições
acadêmicas. Na década de 90 as expressões “direita”
e “esquerda” foram abolidas do vocabulário, assim
como “progressista” e “reacionário”.
Com isso, tornou-se muito mais complexa a tarefa de classificar
politicamente fulano ou sicrano no ano de 2003. Como qualificar
politicamente alguém que, por exemplo, desincentiva a participação
de advogados públicos, cortando a verba para que tesistas
viajem e defendam novas idéias sobre a Advocacia Pública?
Ou que, numa atitude de mau gosto e falta de austeridade administrativa,
para dizer o mínimo, publicam no Diário Oficial que
financiarão despesas com ônibus rodoviário para
uma viagem de pelo menos trinta e seis horas? O que pensar daqueles
que desmontam as estruturas de uma unidade de ensino, divulgação
e pesquisa jurídica de sua instituição?
Faria algum sentido chamar essa pessoa de “direitista”
ou de “reacionária” em pleno século 21?
Lembro-me que, em “1984”, uma das táticas empregadas
pelo Grande Irmão para emburrecer o povo era abolir palavras:
em lugar de “mau”, preferível dizer “imbom”.
Eliminando palavras, vedando o debate, cerceando reuniões
científicas, em pouco tempo teríamos uma multidão
de autômatos dóceis e sem opiniões subversivas.
Será por isso que velhos conceitos como “direita”
e “esquerda”, “reacionários” e “progressistas”
estão sendo esquecidos? Talvez seja preciso retomar as lições
de Orwell. Há pessoas que pautam seu comportamento social
e que afinam seu discurso de acordo com ideologias políticas
bastante definidas e sobejamente conhecidas ao longo da história.
São pessoas que, ao ouvirem a palavra cultura, sentem a vontade
de sacar a arma. Se é assim, quem sabe seja interessante
reavivar o uso dessa dicotomia que, a despeito de simplista, está
repleta de significado histórico. Por que negar que aqueles
que, hoje, deliberadamente, destroem os centros de cultura de suas
instituições ou que desprezam e colocam obstáculos
à participação em congressos nacionais, são
feitos do mesmo barro daquela gente que buscava vantagens no obscurantismo
do período de ditadura militar? Por que não admitir,
pura e simplesmente, que a velha direita, astuta, perversa, avessa
à cultura e vingativa como sempre, depois da queda do muro
de Berlim, beneficiase com a condenação ao seu rótulo
mais característico?
Guilherme José Purvin de Figueiredo
Mestre e Doutor em Direito – USP Advogado Público
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